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— Críton, devemos um galo a Asclépio — rodeado de amigos, Sócrates profere suas últimas palavras. Críton entende que não era uma despedida, mas o anúncio de que sua alma se tornaria imortal — filosofar é saber morrer bem — e Sócrates assim o fez.
Críton então tem a árdua tarefa de encontrar um galo digno ao sacrifício. Possuidor de terras em Alopece, mantinha sua criação no lado oposto do seu campo de oliveiras. Havia um galo imponente, andava altivo e confiante, tinha cerca do dobro de tamanho de um galo comum. Críton o estimava, pois era prêmio de uma velha aposta com Zenão, décadas atrás. Dizia que aquele frango descendia da criação de Parmênides — acredito que esse franguinho herdou os pensamentos do meu mentor — Dizia Zenão, orgulhoso — até me apresentou um paradoxo: ninguém jamais pode pegá-lo, pois sempre que você avança até ele, ele avança um pouco mais, o que cria espaços infinitos.
— Um frango que não pode ser pego? — Críton riu — como isso é um paradoxo?
— Mesmo abastado, você é um homem prático, Críton. Não espero que entenda as implicações metafísicas de fragmentar infinitamente o espaço.
— Tens razão, Zenão. Não entendo nada do que diz. Porém, como homem da prática, quero fazer uma aposta: se eu conseguir pegar o frango, fico com ele. Se não, lhe darei três ânforas de azeite da minha propriedade.
— Feito.
Críton o agarrou com facilidade. Sorriu, divertindo-se com a expressão boquiaberta de Zenão.
— Isso não quebra meu paradoxo — Zenão se retrata, não queria soar incoerente — o frango se deixou capturar, vontade evidente do “Ser”. Os deuses reservam grandes planos a ti, nobre amigo.
De frango a galo, o tempo flui. Quando Críton recebe a notícia da morte de Zenão, ele se dá conta do quanto o galo já viveu — seria este um animal imortal, um ser mítico enviado pelos deuses? — O galo então é nomeado Athanatos.
Athanatos cantava às quatro da manhã. Aos ouvidos dos gregos, apenas um cocoricar, para as aves, um monólogo filosófico intenso. Cercado de mentes inquietas por anos, ele entendia a prosa humana. É dever do sábio compartilhar o saber, e isso fazia em alto e bom som — Ser ou não ser? Eis a questão — articulava eloquentemente enquanto segurava um ovo nas garras, inspirado pela máxima de Parmênides: “o ser é e o não-ser não é”. A humanidade levaria cerca de dois milênios para criar algo à altura daquele monólogo. Cada ave nascida ouvia seus ensaios antes mesmo de sair do ovo. Uma geração inteira de aves domésticas com aspirações filosóficas.
Certa vez, um pintinho lutava penosamente para romper sua casca. Athanatos com toda sua verborragia recitou o poema ‘Da Natureza’, de Parmênides, que conhecia de cabo a rabo de galo. Prosa densa para um neonato, mas a dureza do poema faria a casca parecer frágil como seda molhada. O pintinho nasceu forte e saudável, com os olhos brilhando. Antes mesmo de ficar de pé, proferiu o poema completo sem errar um único theta.
— Que orgulho de ti, meu filho! — Athanatos sorria incrédulo, por mais espertos que os pintinhos fossem, nenhum refletia tanto a natureza do pai — eu declaro você o Frango Parmenidiano!
— Frango Parmediano? Gostei! vai ser meu nome! — o pintinho exclamava eufórico.
— Tão novo e criando palavras novas, assim lhe chamarei! — O pai notou o erro de pronúncia, mas preferiu incentivar a criatividade do filho ao invés de ser dogmático quanto a dureza gramatical do grego.
Desde então, o Frango Parmediano segue seu pai em todos os lugares, ciscando a abundância do saber. Até o fatídico dia em que Athanatos desapareceu, após dizer que daria uma volta sozinho no campo de oliveiras de Críton. Todos já tinham noção do que havia acontecido, a condenação de Sócrates era o assunto do momento na granja, algum galo seria sacrificado.
— Para uma alma imortal como a de Sócrates, apenas um galo imortal, não acham? — As galinhas fofocavam. O Frango Parmediano relutava, mas sabia: Athanatos se foi sem o direito de se despedir, como Sócrates fez. Não era uma regalia reservada a animais. Símbolo auspicioso aos gregos, figura paterna heróica dentre as aves, Athanatos partiu num dia de céu límpido com o Sol a pino, como se o próprio Apolo viesse em sua carruagem para reclamá-lo, como presente a Asclépio.
O Frango Parmediano estava atônito. Como processar o luto? Buscava respostas dialogando com outras aves, que o consolaram.
— Ele teve uma boa morte, é uma honra aos galos! Um mártir! — diziam umas, que converteram seu poleiro em um templo, dedicavam suas vidas à devoção.
— É o ciclo da vida, mais aves serão sacrificadas — conformistas, a maioria voltou à rotina, ciscando como se nada tivesse acontecido. No âmago, sentiam a dor da perda, mas evitavam falar sobre.
Ainda ouviu histórias de como muitas aves fugiram da granja, um grupo de galinhas viajou centenas de quilômetros para protestar diretamente ao oráculo de Delfos, jurando mal agouro para Atenas. Alguns galos formavam bandos e atacavam qualquer filósofo que viam a frente, nem a Acrópole estava segura.
O franguinho compreendia a dor de todos, mas não se identificava com ninguém. Não acreditava ser mais um filósofo, afinal, não se podia filosofar sozinho, tampouco acreditava ser um frango, sem conseguir sair por aí ciscando a beira do ser, sentia um completo “não ser”. A filosofia parmediana mergulhava-o em aporia.
Seu desânimo era notável até para Críton. Enquanto as galinhas ciscavam ao seu redor, ficava lá parado, sem comer. Magro, passava até os dias de chuva no terreiro, imóvel como uma estátua, com o bico voltado aos céus. Um dia, Críton se aproximou, olhando com olhos cheios de melancolia.
— Sócrates… eu sinto falta dele. Sinto muito, tive que atender seu último pedido…
O frango, aparentemente catatônico, rapidamente vira o pescoço, respondendo a voz de Críton:
— Cócôcó… cococó, có? — era quase como se o frango pudesse falar.
— Você sente falta de seu pai, não é? Ele foi um grande galo… — o frango deu alguns passos para frente aos tropeços no chão barroso, Críton suspirou — sinto muito, a única coisa que posso fazer é tirá-lo de sua miséria.
Será que ele compreendeu minhas palavras, ao menos pela última vez na vida? — O frango se perguntava, enquanto era carregado pelas pernas ao tronco de abate. Lembrou-se da história de seu pai ao tentar se comunicar com humanos: até ensinou um paradoxo a Zenão, mesmo não sendo compreendidos com palavras, seus passos diziam algo. O conhecimento transcende a linguagem, do mesmo modo que seus sentimentos podiam ser entendidos por Críton.
Magro demais para virar alimento, sabia que seria sacrificado por pena, não como uma oferenda aos deuses. — Que Zeus tenha misericórdia dessa pobre alma! — Exclamou Críton, já com o machado empunhado ao alto, pronto para desferir o golpe fatal.
— Alma?
— O que é a alma? — Uma miríade de pensamentos percorre a mente do franguinho enquanto o machado descende em câmera lenta — por alma, Críton me reconhece como um ser racional? Ou diz isso apenas por eu estar vivo? Talvez ele seja um pitagórico e acredite em reencarnação… Voltaria eu como um homem, então? — Mesmo à beira da morte, uma alegria o preenche, nunca é tarde para filosofar — como é morrer? É uma pergunta respondida ao fim da vida, ou ironicamente se morre antes de saber? — Um clarão. Um estrondo. Calor. A pressão da mão de Críton que o segurava lentamente se alivia, sente-se solto e leve. — bom, assim é morrer. Pelo menos meu pescoço não dói.
O Frango à Parmediana se ergue, lentamente recuperando sua visão enturvada — devo esperar por Caronte? — Confuso, vê que ainda está na fazenda. Vira-se, nota Críton caído no chão enquanto segura um toco de madeira esturricado.
— Pobre Críton, ergueu o machado alto demais e foi atingido por um raio — lamentou — Ao menos Zeus atendeu a sua prece final.
Sobre o conto
É curioso como as últimas palavras de Sócrates, ao menos como Platão descreve em Fédon, sejam um pedido de sacrifício de um galo feito a Críton, um de seus amigos mais próximos.
Muito se discute sobre a simbologia de tal sacrifício, talvez até como uma tentativa de Platão de tornar a morte de Sócrates algo mais poético, quase como uma passagem mitológica, mas pouco se discute sobre “quem seria esse galo?”.
Imagino que, para muitos, seja um questionamento trivial, até mesmo estúpido, mas por que não? E Críton, como se sentira diante de tal pedido? Como achar um galo a altura do seu grande amigo, Sócrates?
E o mais importante: a morte deste galo teria um impacto tão grande na sociedade dos frangos, assim como a morte de Sócrates impactou todo pensamento do mundo ocidental? Tal fato pode ser respondido pelo Frango Parmediano, filho de Athanatos, o maior galo que já pisou na terra.
—[Sócrates] Críton — exclamou — , devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de saldar essa dívida!
— [Críton] Assim Farei — respondeu Críton. — Vê se queres dizer mais alguma coisa.
A essa pergunta já não respondeu. Decorrido mais algum tempo, deu um estremeção. O homem o descobriu; tinha o olhar parado. Percebendo isso, Críton fechou-lhe os olhos e a boca.
[Críton] Tal foi o fim do nosso amigo, Equécrates, do homem, podemos afirmá-lo, que entre todos os que nos foi dado conhecer, era o melhor e também o mais sábio e mais justo.
–O Fédon (por Platão)
Referências:
- Fédon – Platão